4. A
CRIAÇÃO COMO UM ATO PELO QUAL ALGO É PRODUZIDO DO NADA.
Termos
bíblicos para “criar”. Na narrativa da criação, como já foi indicado, são empregados três
verbos são utilizados alternadamente na Escritura, Gn 1.26,27; 2.7. A primeira
palavra é a mais importante. Seu sentido originário é partir,
cortar, dividir; mas, em acréscimo, significa também formar, criar e, num sentido de
derivação mais distante, produzir,gerar e regenerar. A palavra mesma não
transmite a idéia de produzir do nada alguma coisa, pois é usada até com
referência a obras da providência, Is 45.7; Jr 31.22; Am 4.13.
As palavras do Novo Testamento são Mc
13.19, Mt 19.4: ;Hb 1.10, Rm 9.22, Hb 3.4, e Rm 9.20.
Base
Bíblica da doutrina da criação do nada. Gn 1.1 registra o início da obra da
criação, e certamente não apresenta Deus produzindo o mundo com material
preexistente. Foi criação do nada, criação no sentido estrito da palavra e,
daí, a única parte da obra registrada em Gn 1 a que Calvino aplica o termo.
Mesmo na parte restante do capítulo, porém, Deus é descrito produzindo todas as
coisas pela palavra do Seu poder. A mesma verdade é ensinada em passagens como
Sl 33.6, 9 e 148.5. A passagem mais forte é Hb 11.3: “Pela fé entendemos que
foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a
existir das coisas que não aparecem”, ou, na versão utilizada pelo autor, “...
de maneira que, o que se vê não foi feito das cousas que aparecem”. A criação é
descrita aqui como um fato que apreendemos somente pela fé. Pela fé entendemos
(percebemos, não compreendemos) que o mundo foi estruturado ou formado pela
palavra de Deus, a palavra de poder de Deus, de modo que as coisas que se vêem,
as coisas visíveis deste mundo, não foram feitas das coisas que aparecem, que
são visíveis. De acordo com essa passagem que pode ser citada nesta conexão é
Rm 4.17, que fala de Deus, “que vivifica os mortos e chama à existência as
cousas que não existem como se existissem” (Moffatt “que faz viver aos mortos e
chama à existência o que não existe”). Contudo a declaração de ¨trazer as
coisas a existências¨ pertence à própria natureza de Deus ser Ele capaz de
chamar à existência o que não existe, e Ele o faz
5. CRIAÇÃO PROPICIA AO MUNDO UMA EXISTÊNCIA
DISTINTA E, TODAVIA, SEMPRE DEPENDENTE.
a. O mundo tem existência
distinta. Quer dizer que o mundo não é Deus, nem alguma parte de Deus, mas algo
absolutamente distinto de Deus; e que difere de Deus, não meramente em grau,
mas em suas propriedades essenciais. Deus é auto-existente e auto-suficiente,
infinito e eterno, o mundo é dependente, finito e temporal. Um jamais poderá
transformar-se no outro. Esta doutrina apóia-se em passagens da Escritura que
(1) atestam a existência distinta do mundo, Is 42.5; At 17.24; (2) falam da
imutabilidade de Deus, Sl 102.27; Ml 3.6; Tg 1.17; (3) traçam uma comparação
entre Deus e a criatura, Sl 90.2: 102.25-27; 103. 15-17; Is 2.21; 22.17, etc.;
e (4) falam do mundo como pecaminoso ou jazendo no pecado, Rm 1.18-32; 1 Jo
2.15-17, etc.
b. O mundo é sempre dependente
de Deus. Apesar
de Deus ter dado ao mundo uma
existência distinta da Sua, não se
afastou do mundo após havê-lo criado, mas continuou na mais estreita conexão
com ele. Dele se diz que enche o céu e a terra, Sl 139.7-10; Jr 23.24,
constitui a esfera em que vivemos, nos movemos e existimos At 17.28, renova a
face da terra por Seu Espírito, Sl 104.30, habita nos quebrantados de coração.
Sl 51.11; Is 57.15, e na igreja como Seu templo, 1 Co 3.16; 6.19; Ef 2.22.
Tanto a transcendência como a imanência, acham expressão numa mesma passagem da
Escritura, a saber, Ef 4.6, onde o apóstolo diz que temos “um só Deus e pai de todos,
o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em
todos”.
6. O FIM ÚLTIMO DE DEUS NA CRIAÇÃO. A glória
declarativa de Deus. A igreja de Jesus Cristo encontrou o verdadeiro fim da criação, não em
alguma coisa que esteja fora de Deus, mas em Deus mesmo, mais particularmente
na manifestação externa da Sua excelência inerente. Deus criou o universo para tornar a Sua glória saliente e
manifesta. As gloriosas perfeições de Deus são demonstradas em toda a Sua criação;
e esta demonstração não é para uma vã mostra, para uma exibição para ser
meramente admirada pelas criaturas, mas visa também à promoção do seu bem-estar
e da sua perfeita felicidade.
O fim supremo de Deus na criação – a
manifestação da Sua glória – inclui, pois, como fins subordinados, a felicidade
e salvação das Suas criaturas, e o recebimento de louvor de corações
agradecidos e desejosos de adora-lo. Esta doutrina tem suporte nas seguintes
considerações: (1) Baseia-se no testemunho da Escritura, Is 43.7; 60.21; 61.3;
Ez 36.21, 22; 39.7; Lc 2.14; Rm 9.17;11.36; 1 Co 15.28; Ef 1.5, 6, 9, 12, 14;
3.9, 10; Cl 1.16. (2) Dificilmente o Deus infinito escolheria alguma coisa
inferior ao fim supremo em toda a criação, e esse fim se pode achar nele mesmo.
Se nações inteiras, comparadas com Ele, não passam de uma gota num balde, e são
como o pó da balança, então, certamente, a Sua glória declarativa é
intrinsecamente de muito maior valor que o bem de Suas criaturas, Is 40.15, 16.
(3) A glória de Deus é o único fim coerente com a Sua independência e
soberania. Cada qual depende de quem ou do que ele escolhe como o seu fim
último. Se Deus escolhesse algo da criatura como o Seu fim é ultimo, isto O
tornaria dependente da criatura naquela medida. (4) Nenhum outro fim seria
suficientemente compreensivo para constituir o verdadeiro fim de todos os
caminhos e obras de Deus na criação. Esse tem a vantagem de abranger, como
subordinados, vários outros fins. (5) Esse é o único fim real e perfeitamente
alcançado no universo.
IV. Criação
do Mundo Espiritual
A Natureza
dos Anjos.
1. DIFERENTEMENTE DE DEUS, OS ANJOS SÃO
SERES CRIADOS. A criação dos anjos é ensinada com clareza na Escritura. Sl
148.2,5 e Cl 1.16 falam claramente da criação dos anjos (comp. 1 Rs 22.19; Sl
103.20,21). Os Anjos ao que parece, a única afirmação segura é que foram
criados antes do sétimo dia. Pelo menos é o que se deduz de passagens como Gn
2.1; ex 20.11; Jó 38.7; Ne 9.6.
2. OS ANJOS SÃO SERES ESPIRITUAIS E
INCORPÓREOS. As explícitas
afirmações da Escritura de que os anjos são
pneumata,
Mt
8.16; 12.45; Lc 7.21; 8.2; 11.26; At 19.12; Ef 6.12; Hb 1.14. Não têm carne e
ossos, Lc 24.39, não se casam, Mt 22.30, podem estar presentes em grande número
num espaço muito limitado, Lc 8.30, e são invisíveis, Cl 1.16. Passagens como
Sl 104.4 (comp. Hb 1.7); Mt 22.30; e 1 Co 11.10 não provam a corporalidade dos
anjos.
É evidente, porém, que eles são criaturas
e, portanto, limitados e finitos, apesar de terem mais livre relação com o
espaço e o tempo do que o homem. Não podemos atribuir-lhes ubi
definitivum (localização definida). Eles não podem estar em dois ou mais lugares
simultaneamente.
3. SÃO SERES RACIONAIS, MORAIS E
IMORTAIS. Quer dizer que são seres pessoais, dotados de inteligência e vontade.
O fato de que são seres inteligentes parece inferir-se imediatamente do fato de
que são espíritos; mas também a Bíblia ensina isso explicitamente, 2 Sm 14.20;
Mt 24.36; Ef 3.10; 1 Pe 2.11. Embora não oniscientes, são superiores aos homens
em conhecimento, Mt 24.36. Além disso, têm natureza moral e, nesta qualidade,
estão sob obrigação moral; são recompensados pela obediência, e punidos pela
desobediência. A Bíblia fala dos anjos que permaneceram leais como “santos
anjos”, Mt 25.31; Mc 8.38; Lc 9.26; At 10.22; Ap 14.10, e retrata os que caíram
como mentirosos e pecadores, Jo 8.44; 1 Jo 3.8-10. os anjos bons são também
imortais, no sentido de que não estão sujeitos à morte. Quanto a isso se diz
que os santos do céu são semelhantes a eles, Lc 20.35, 36. Eles formam o
exército de Deus, uma hoste de heróis poderosos, sempre prontos a fazer o que o
Senhor mandar, Sl 103.20; Cl 1.16; Ef 1.21; 3.10; Hb 1.14; e os anjos maus
formam o exército de Satanás, empenhados em destruir a obra do Senhor, Lc
11.21; 2 Ts 2.9; 1 Pe 5.8.
4. HÁ ANJOS BONS E ANJOS MAUS. A Bíblia
dá pouca informação a respeito do estado original dos anjos. Lemos, porém, que
no fim de Sua obra criadora Deus viu tudo quanto fizera, e eis que era muito
bom. Além disso, Jo 8.44; 2 Pe 2.4; Jd 6 pressupõe uma boa condição original de
todos os anjos. Os anjos bons são chamados “anjos eleitos”, 1 Tm 5.21. São
chamados não somente santos anjos, mas também anjos de luz, 2 Co 11.14. Sempre
contemplam a face de Deus, Mt 18.10, servem-nos de exemplos na prática da
vontade de Deus, Mt 6.10, e têm vida imortal, Lc 20.36.
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