O HOMEM NO ESTADO DE PECADO
I. A Origem do Pecado
O problema do mal É um
problema que se impõe naturalmente à atenção do homem, visto que o poder do mal
é forte e universal, é uma doença sempre presente na vida em todas as
manifestações desta, e é matéria da experiência diária na vida de todos os
homens. Os filósofos estão convictos que o mal teve uma origem
voluntária, isto é, que se originou na livre escolha do homem, quer na
existência atual quer numa existência anterior. Estes acham-se bem mais perto
da verdade revelada na Palavra de Deus.
B. Dados Bíblicos a Respeito da Origem do Pecado.
Na Escritura, o mal moral existente no mundo transparece
claramente como pecado, isto é,
como transgressão da lei de Deus. Nela o homem sempre aparece
como transgressor pó
natureza, e surge naturalmente a questão: Como adquiriu ele
essa natureza? Que revela a Bíblia sobre esse ponto?
1. NÃO SE PODE CONSIDERAR DEUS COMO O SEU AUTOR. O decreto
eterno de Deus evidentemente deu a certeza da entrada do pecado no mundo, mas
não se pode interpretar isso de modo que faca de Deus a causa do pecado no
sentido de ser Ele o seu autor responsável.
Esta idéia é claramente excluída pela Escritura. “Longe de
Deus o praticar ele a perversidade, e do Todo-poderoso o cometer injustiça”, Jó
34.10. Ele é o santo Deus, Is 6.3, e absolutamente não há falta de retidão
nele, Dt 32.4; Sl 92.16. Ele não pode ser tentado pelo mal, e Ele próprio não tenta a
ninguém, Tg 1.13. Quando
criou o homem,
criou-o bom e
à Sua imagem.
Ele positivamente odeia o pecado, Dt 25.16; Sl 5.4; 11.5; Zc 8.17; Lc
16.15, e em Cristo fez provisão para libertar do pecado o homem. À luz disso
tudo, seria blasfemo falar de Deus como o autor do pecado.
2. O PECADO ORIGINOU-SE NO MUNDO ANGÉLICO. A Bíblia nos
ensina que, na tentativa de investigar a origem do pecado, devemos retornar à
queda do homem. Mas ocorreu uma queda no mundo angélico, queda na qual legiões
de anjos se apartaram de Deus. A ocasião exata dessa queda não é indicada, mas
em Jó 8.44 Jesus fala do diabo como assassino desde o princípio (kat’arches), e
em 1 Jo 3.8 diz João que o diabo peca desde o princípio. A opinião é a de que a
expressão kai’ arches significa desde o começo da história do homem. Da
exortação de Paulo a Timóteo, a que nenhum neófito fosse designado bispo, “para
não suceder que se ensoberbeça, e incorra na condenação do diabo”, 1 Tm 3.6,
podemos concluir que, com toda a probabilidade, foi o pecado do orgulho, de
desejar ser como Deus em poder e autoridade. E esta idéia parece achar
corroboração em Jd 6, onde se diz que os que caíram “não guardaram o seu estado
original, mas abandonaram o seu próprio domicílio”. Não estavam contentes com a
sua parte, com o governo e poder que lhes fora confiado. Se o desejo de serem
semelhantes a Deus foi a tentação
peculiar que sofreram, isto explica por que tentaram o homem nesse ponto
particular.
3. A ORIGEM DO PECADO NA RAÇA HUMANA. Com respeito à origem
do pecado na história da humanidade, a Bíblia ensina que ele teve início com a
transgressão de Adão no paraíso e, portanto, com um ato perfeitamente
voluntário da parte do homem Mas a coisa não parou aí, pois com esse primeiro
pecado Adão passou a ser escravo do pecado. Esse pecado trouxe consigo
corrupção permanente, corrupção que, dada a solidariedade da raça humana, teria
efeito, sobre todos os seus descendentes. Como resultado da Queda, o pai da
raça só pôde transmitir uma natureza depravada aos pósteros. Dessa fonte de
pecado flui numa corrente impura passando para todas as gerações de homens,
corrompendo tudo e todos com que entra em contato. Jó 14.4. Mas ainda isso não
é tudo. Adão pecou como chefe representativo de todos os seus descendentes; e,
portanto, a culpa do seu pecado é posta na conta deles, pelo que todos são
passíveis de punição e morte. É primariamente nesse sentido que o pecado de
Adão é o pecado de todos. Rm 5.12: As últimas palavras só podem significar que
pecaram em Adão, e isso de modo que se tornaram sujeitos ao castigo e à morte.
O pecado considerado como culpa que leva
consigo o castigo. Deus adjudica a todos os homens a condição de pecadores culpados
em Adão. É o que Paulo quer dizer Rm
5.18, 19.
C. A Natureza do Primeiro Pecado ou da Queda do Homem.
1. SEU CARÁTER FORMAL. Pode-se dizer que, o primeiro pecado do
homem consistiu em comer ele da árvore do conhecimento do bem e do mal. Não
sabemos que espécie de árvore era. Poderia ser uma tamareira ou uma figueira ou
qualquer outra árvore frutífera. Nada havia de ofensivo no fruto da árvore como
tal. Comê-lo não era pecaminoso per se, pois não era uma transgressão da lei
moral. Quer dizer que não seria pecaminoso, se Deus não tivesse dito: “da
árvore do conhecimento do bem e do mal
não comerás”. É muito mais provável que a árvore foi denominada desse
modo porque fora destinada a revelar (a) se o estado futuro do homem seria bom
ou mal; e (b) se o homem deixaria que Deus lhe determinasse o que era bom ou
mau, ou se encarregaria de determina-lo por si e para si. A ordem de Deus para
não comer do fruto da árvore serviu simplesmente ao propósito de pôr à prova a
obediência do homem. Foi um teste de pura obediência, desde que Deus de modo
nenhum procurou justificar ou explicar a proibição. Adão tinha que mostrar sua
disposição para submeter a sua vontade à vontade do seu Deus com obediência
implícita.
2. SEU CARÁTER
ESSENCIAL E MATERIAL. O primeiro pecado do homem foi um pecado típico, isto
é, um pecado no qual a essência real do pecado se revela claramente. A essência desse pecado está no fato de
que Adão se colocou em oposição a
Deus, recusou-se a sujeitar a sua vontade à vontade de Deus de modo que
Deus determinasse o curso da sua vida; e tentou ativamente tomar a coisa toda
das mãos de Deus e determinar ele próprio o futuro. O homem, que não tinha
absolutamente nenhum direito para alegar a Deus, e que só poderia estabelecer
algum direito pelo cumprimento da condição da aliança das obras, desligou-se de
Deus e agiu como se possuísse certos direitos contra Deus. A idéia de que o
mandado de Deus era de fato uma infração dos direitos do homem parece que já
estava na mente de Eva quando, em resposta à pergunta de Satanás, acrescentou
as palavras, “nem tocareis nele”, Gn 3.3. Evidentemente ela quis salientar o
fato de que a ordem não fora razoável. Partindo da pressuposição de que tinha
certos direitos contra Deus, o homem promulgou o novo centro de operações, que
viu nele próprio, onde agir contra o seu Criador. Isto explica o seu desejo de
ser como Deus e a sua dúvida quanto às boas intenções de Deus ao dar-lhe a
ordem. Naturalmente podem distinguir-se diferentes elementos do seu primeiro
pecado. No intelecto revelou-se como incredulidade e orgulho, na vontade, como o desejo de ser como Deus, e nos sentimentos, como
uma ímpia
satisfação ao comer do fruto proibido.
D. O Primeiro Pecado ou a Queda como Ocasionada pela
Tentação.
1. OS PROCEDIMENTOS DO TENTADOR. A queda do homem foi
ocasionada pela tentação da serpente, que semeou na mente do homem as sementes
da desconfiança e da descrença. Tentador dirigiu-se a Eva, porque (a) não
exercia a chefia da aliança e, portanto, não teria o mesmo senso de
responsabilidade; (b) não recebeu diretamente a ordem de Deus, mas apenas
indiretamente e, por conseguinte, seria mais suscetível de ceder à argumentação
e duvidar; e (c) seria sem dúvida o instrumento mais eficiente para alcançar o
coração de Adão. O curso seguido pelo tentador é bem claro. Em primeiro lugar,
ele semeia as sementes da dúvida pondo em questão as boas intenções de Deus e
insinuando que Sua ordem era realmente uma violação da liberdade e dos direitos
do homem. Quando nota, pela reação de Eva, que a semente tinha criado
raiz, acrescenta as
sementes da descrença
e do orgulho,
negando que a transgressão resultaria na morte e dando a
entender claramente que a ordem divina fora motivada pelo objetivo egoísta de
manter o homem em sujeição. Ele afirma que, ao comer da árvore, o homem
passaria a ser como Deus. As elevadas expectativas assim geradas induziram Eva
a observar com atenção a árvore, e quanto mais olhava, melhor lhe parecia o
fruto. Finalmente, o desejo lhe moveu a mão, e ela comeu do fruto e também o
deu ao marido, e ele comeu.
2, INTERPRETAÇÃO DA TENTAÇÃO.
Pode-se provar que assim foram entendidas pelos escritores
bíblicos, mediante muitas referências, como por exemplo, Jó 31.33; Ec 7.29; Is
43.27; Os 6.7; Rm 5.12, 18, 19; 1 Co 5.21; 2 Co 11.3; 1 Tm 2.14, e, portanto,
não temos o direito de afirmar que os referidos versículos, que constituem
parte integrante da narrativa, devem ser interpretados figuradamente. Além
disso, certamente a serpente é considerada como um animal em Gn 3.1, e não
daria bom sentido substituir “serpente” por “Satanás”. O castigo de que fala Gn
3.14, 15 pressupõe uma serpente literal, e Paulo não a entende doutro modo, em
2 Co 11.3. E, apesar de poder-se entender num sentido figurado a serpente falar
por meio de gestos astutos, não parece possível imaginá-la mantendo dessa
maneira a conversação registrada em Gn 3. A transação toda, a fala da serpente
inclusive, sem dúvida acha sua explicação na operação de algum poder
sobrenatural, não mencionado em Gn 3. A Escritura dá a entender claramente que
a serpente foi apenas um instrumento de Satanás, e que Satanás foi o real
tentador, que agiu na serpente e por meio dela, como posteriormente agiu em
homens e em porcos, Jo 8.44; Rm 16.20; 2 Co 11.3; Ap 12.9.
A serpente foi um
instrumento próprio para
Satanás, pois ele é
a personificação do pecado, e a serpente simboliza o pecado (a) em sua
natureza astuta e enganosa, e (b) em sua picada venenosa, com a qual mata o
homem.
3. A QUEDA PELA TENTAÇÃO E A SALVABILIDADE DO HOMEM. Tem-se
sugerido que o fato de que a queda do homem foi ocasionada pela tentação
proveniente de fora, pode ser uma das razões pelas quais o homem é salvável,
diversamente dos anjos, que não estiveram sujeitos a uma tentação externa, mas
caíram pelas incitações da sua própria natureza interior. Nada de certo se pode
dizer sobre este ponto, porém. Mas, seja qual for o significado da tentação a
este respeito, certamente não será suficiente para explicar como um ser santo
como Adão pôde cair em pecado. É-nos impossível dizer como a tentação pôde
encontrar um ponto de contato numa pessoa santa. E mais difícil de explicar
ainda, é a origem do pecado no mundo angélico.
Os Resultados do Primeiro Pecado.
A primeira transgressão do homem teve os seguintes
resultados:
1. O concomitante imediato do primeiro pecado e, portanto,
dificilmente um resultado dele no sentido estrito da palavra, foi a depravação
total da natureza humana. Esta completa corrupção do homem é ensinada
claramente na Escritura, Gn 6.5; Sl 14.3; Rm 7.18. A depravação total de que se
trata aqui não significa que a natureza humana ficou logo tão completamente
depravada como teria a possibilidade de vir a ser. Na vontade essa depravação
manifestou-se como incapacidade espiritual.
2. Imediatamente relacionada com a matéria do item anterior,
deu-se a perda da comunhão com Deus mediante o Espírito Santo. Esta é
simplesmente o reverso da completa corrupção mencionada no parágrafo anterior.
Ambos podem ser combinados numa única declaração, de que o homem perdeu a
imagem de Deus no sentido de retidão original. Ele rompeu com a verdadeira
fonte de vida e bem-aventurança, e o resultado foi uma condição de morte
espiritual, Ef 2.1, 5, 12; 4.18.
3. Esta mudança da condição real do homem refletiu-se também
em sua consciência. Houve, primeiramente, uma consciência da corrupção,
revelando-se no sentido de vergonha, e no esforço que os nossos primeiros pais
fizeram para cobrir a sua nudez. E depois houve uma consciência de culpa, que
achou expressão numa consciência acusadora e no temor de Deus que isso
inspirou.
4. Não somente a morte espiritual, mas também a morte física
resultou do primeiro pecado do homem. De um estado de posse non mori desceu a
um estado de non possenon mori. Havendo pecado, ele foi condenado a retornar ao
pó do qual fora tomado, Gn 3.19. Diz-nos Paulo que por um homem a morte entrou
no mundo e passou a todos os homens, Rm 5.12, e que o salário do pecado é a morte,
Rm 6.23.
5. Esta mudança redundou também numa necessária mudança de
resistência. O homem foi expulso do paraíso, porque este representava o lugar
da comunhão com Deus, e era símbolo da vida mais completa e de uma
bem-aventurança maior reservadas para ele, se continuasse firme. Foi-lhe vedada
a árvore da vida, porque esta era o símbolo da vida prometida na aliança das
obras.
gostei. agora sei o que é o pecado. valeu
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