II. O Ofício Sacerdotal
A. A Idéia Bíblica de Um Sacerdote.
1. OS TERMOS EMPREGADOS NA ESCRITURA. A palavras
veterotestamentárias para sacerdote acham-se em passagens que se referem a
sacerdotes idólatras, 2 Rs 23.5; Os 10.5; Sf 1.4, O significado original de
kohen é incerto. Não é impossível que nos primeiros tempos indicasse um funcionário civil bem como um
servidor eclesiástico, cf. 1 Rs 4.5; 2 Sm 8.18; 20.26. A palavra sempre
indicava alguém que ocupava posição
honrosa e de responsabilidade, e que estava revestido de autoridade sobre outros; serve para designar um oficial eclesiástico. A palavra
neotestamentária para sacerdote indicava originariamente “um ser poderoso” e, mais tarde, “uma pessoa sagrada”, “uma pessoa dedicada a Deus”.
2. A DISTINÇÃO ENTRE UM PROFETA E UM SACERDOTE. A Bíblia faz
ampla distinção entre profeta e sacerdote. (1) Ambos receberam de Deus o seu encargo, Dt 18.18, 19; Hb 5.4. mas o (a) profeta: Representante de Deus junto ao povo,
mensageiro de Deus e para interpretar a Sua vontade. Um mestre religioso.
O(b) sacerdote:
representante do homem junto a Deus. Especial privilégio de aproximar-se de Deus, e de falar e agir em favor do povo. Na
antiga dispensação, os sacerdotes eram mestres, mas o seu ensino diferia do
ensino dos profetas. Os sacerdotes salientavam as observâncias rituais
envolvidas num adequado acesso a Deus.
3. AS FUNÇÕES DO SACERDOTE, NOS TERMOS INDICADOS NA
ESCRITURA.
Hb 5.1. Estão
indicados ali os seguintes elementos: (a) o sacerdote é tomado dentre os homens
para ser o seu representante; (b) é constituído por Deus, cf. o versículo 4;
(c) age no interesse dos homens nas coisas pertencentes a Deus, isto é, nas
coisas religiosas; (d) (a) sua obra especial consiste em oferecer dádivas e sacrifícios
pelos pecados. (b) Ele também fazia intercessão pelo povo (Hb 7.25) e (c) os
abençoava em nome de Deus, Lv 9.22.
4. PROVAS BÍBLICAS DO OFICIO SACERDOTAL DE Cristo. O Velho
testamento prediz e prefigura o sacerdócio do redentor vindouro. Sl 110.4 e Zc
6.13.
No Velho Testamento o sumo sacerdote, claramente prefiguram
um Messias sacerdotal. No Novo Testamento, Epistola aos Hebreus Ele é chamado
sacerdote ali o nome é repetidamente aplicado a Ele, 3.1; 4.14; 5.5; 6.20;
7.26; 8.1. Os livros do Novo Testamento se referem à obra sacerdotal de Cristo.
B. A Obra Sacrificial de Cristo.
Foi dupla. Sua tarefa máxima foi a de oferecer um sacrifício todo-suficiente pelo pecado do mundo. Era
próprio do oficio de sacerdote apresentar oferendas e oferecer sacrifícios pelo
pecado.
1. A IDÉIA SACRIFICIAL NA ESCRITURA. A idéia sacrificial ocupa
lugar muito importante na Escritura. Foram sugeridas várias teorias quanto à
origem e desenvolvimento desta idéia. As mais importantes são as seguintes:
a. A teoria do
presente, que sustenta que, originariamente, os sacrifícios eram dádivas à divindade,
dadas com a intenção de estabelecer boas relações e de garantir favores. Isto
se baseia numa concepção extremamente grosseira de Deus, em completa desarmonia
com a descrição escriturística de Deus. Ademais, não explica por que a dádiva
sempre devia ser apresentada na forma de um animal imolado. A Bíblia fala de
dons ou presentes oferecidos a Deus (Hb 5.1), mas unicamente como expressões de
gratidão, e não com o propósito de pedir o favor de Deus.
b. A teoria da
comunhão sacramental, baseada na idéia totêmica de reverenciar um animal que
supostamente compartilhava a natureza divina. Em ocasiões solenes, um animal
assim considerado era morto para servir de comida para o homem, que, deste
modo, comia literalmente o seu Deus e assimilava as qualidades divinas.
Todavia, não há absolutamente nada no Livro de Gênesis que insinue uma idéia
tão completamente anti-espiritual e tão crassamente material.
Difere totalmente da exposição global da Bíblia. Não
significativa, é certo, que alguns pagãos não possam ter defendido essa idéia
mais tarde, mas significa, sim, que não existe base nenhuma para considerar
isso como sendo a idéia original.
c. A teoria da
homenagem, segundo a qual os sacrifícios eram originalmente expressões de homenagem
e dependência. O homem foi instigado a procurar mais íntima comunhão com Deus, não
por um senso de culpa, mas por um sentimento de dependência e por um desejo de
prestar homenagem a Deus. Esta teoria não faz justiça aos fatos, no caso de
sacrifícios primitivos como os de Noé e Jó; nem tampouco explica por que esta
homenagem devia se prestada imolando-se um animal.
d. A teoria do
símbolo, que considera as ofertas como símbolos da restaurada comunhão com Deus.
A morte do animal tinha lugar somente para garantir a obtenção de sangue que,
como símbolo da vida, era apresentado sobre o altar, significando comunhão de
vida com Deus (Keil).
Esta teoria certamente não se enquadra nos fatos, no caso
dos sacrifícios de Noé e Jó, nem nos fatos relacionados com o sacrifício de
Abraão, quando colocou Isaque sobre o altar. Tampouco explica por que, em
épocas mais recentes, tanta importância foi dada à imolação do animal.
e. A teoria
piacular,* que considera os sacrifícios como sendo originariamente
expiatórios ou reparatórios. Nesta teoria, a idéia fundamental presente na imolação
do animal era a expiação vicária pelos pecados do ofertante. À luz da
Escritura, esta teoria merece preferência. A idéia de que, sejam quais forem os
outros elementos presentes, como uma expressão de gratidão a Deus ou de
comunhão com Ele, o elemento piacular também estava presente, sendo mesmo o elemento
mais proeminente, é favorecida pelas seguintes considerações: (a) O efeito das
ofertas queimadas de Noé foi expiatório, Gn 8.21. (b) O que deu ocasião ao
sacrifício oferecido por Jó foram os pecados dos seus filhos, Jó 1.5. (c) Esta
teoria explica o fato de que os sacrifícios eram normalmente apresentados na
forma de animais imolados, e de que os sacrifícios eram cruentos, envolvendo o
sofrimento e a morte da vítima. (d) está em plena harmonia com o fato de que os
sacrifícios que prevaleciam entre as nações pagãs em geral, certamente eram
considerados como expiatórios. (e) Ademais, está em perfeito acordo com a
indubitável presença, no período prémosaico, de várias promessas do redentor
por vir. Devem ter isto em mente os que consideram a idéia piacular dos
sacrifícios como demasiadamente avançada para aquela época. (f) Finalmente, ela
também se ajusta bem ao fato de que, quando foi introduzido o ritual
sacrificial mosaico, no qual o elemento expiatório era por certo o mais
proeminente, de maneira nenhuma este elemento foi apresentado como uma coisa
inteiramente nova.
A Bíblia não registra nenhuma declaração especial. Mas a
impressão que se tem é que os sacrifícios expiatórios após a Queda só podem
ter-se originado de uma determinação divina. Há considerável fora nos argumentos
do dr. A. A. Hodge. Diz ele: “(1) É inconcebível que a propriedade ou a
provável utilidade de apresentar
presentes materiais ao Deus invisível, e especialmente de tentar fazer propiciação a Deus pela
matança de Suas criaturas irracionais, ocorresse alguma vez à mente humana com uma inspiração espontânea. (2) Na hipótese de que Deus quisesse salvar os
homens, é inconcebível que Ele os
deixasse sem instruções sobre uma questão de tão vital importância como a
que se refere aos meios pelos * Piacular, “expiatório”. Do latim pio, “expiar”.
Daí, piacularis, “piacular” e piaculum, “piáculo”, “sacrifício expiatório”. Quais
eles poderiam chegar à Sua presença e granjear o Seu favor. (3) Ele se manifesta zeloso quanto a qualquer
uso que o homem faça de métodos não autorizados de culto ou serviço. Ele
insiste uniformente neste exato ponto do Seu soberano direito de ditar métodos
de culto e serviço bem como os termos de sua aceitação. (4) O primeiro exemplo registrado de culto
aceitável, na família de Adão, apresenta-nos sacrifícios cruentos e os sela com
a aprovação divina. Eles aparecem no primeiro ato de culto, Gn 4.3, 4. São
enfaticamente aprovados por Deus, tão logo aparecem”.1 Os sacrifícios mosaicos
foram claramente determinados por Deus.
2.A OBRA SACRIFICIAL DE CRISTO SIMBOLIZADA E TIPIFICADA. A
obra sacrificial de Cristo foi simbolizada e tipificada pelos sacrifícios
mosaicos. Em conexão com estes sacrifícios, os seguintes pontos merecem
atenção:
a. Sua natureza
expiatória e vicária.
Escritura testifica o
fato de que todos os sacrifícios de animais em Israel foram piaculares, embora
esta qualidade não seja igualmente proeminente em todos eles. Era mais
proeminente nas ofertas pelo pecado e pelas transgressões, menos proeminente nas
ofertas queimadas, e ainda menos evidente nas ofertas pacíficas. A presença
desse elemento naqueles sacrifícios transparece (1) nas claras afirmações de Lv 1.4; 4.29, 31, 35; 5.10; 16.7; 17.11. (2)
na imposição das mãos que,
certamente servia para simbolizar a transferência do pecado e da culpa, Lv 1.4;
16.21, 22; (3) na aspersão do sangue no altar e no assento da misericórdia
(propiciatório) como uma cobertura para o pecado, Lv 16.27; e (4) no efeito
repetidamente registrado dos sacrifícios, qual seja, o perdão dos pecados do
ofertante, Lv 4.26, 31, 35.
b. Sua natureza
típico-profética. Os sacrifícios tinham significação cerimonial, simbólica, espiritual
e típica. Eram de caráter profético, e representavam o Evangelho na Lei. Foram
destinados a prefigurar os sofrimentos
vicários de Jesus Cristo e sua morte expiatória. A conexão entre eles e
Cristo já vem indicada no Velho Testamento. No Salmo 40.6-8 o Messias é
apresentado como a dizer: “Sacrifícios e ofertas não quiseste; abriste os meus ouvidos;
holocaustos e ofertas pelo pecado, não os requeres. Então eu disse: Eis aqui
estou eu, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua
vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a tua lei”. Nestas palavras, o
Messias substitui os sacrifícios do Velho Testamento pelo Seu grande
sacrifício. Vão-se as sombras quando chega a realidade que elas fracamente
projetam, Hb 10.5-9. No Novo Testamento há numerosas indicações de que os sacrifícios mosaicos eram típicos do
superior sacrifício de Jesus Cristo. Há claras indicações, e até afirmações
expressas, no sentido de que os
sacrifícios do Velho Testamento prefiguravam Cristo e Sua obra, Cl 2.17,
onde é evidente que o apostolo tem em mente todo o sistema mosaico; Hb 9.23,
24; 10.1; 13.11, 12. Varias passagens ensinam que Cristo realizou pelos
pecadores, num sentido mais elevado, o que se dizia que os sacrifícios do Velho
Testamento efetuavam por aqueles que os ofereciam, e que Ele o fez de maneira
semelhante, 2 Co 5.21; Gl 3.13; 1 Jo 1.7.
Ele é chamado “o Cordeiro de Deus”, Jo 1.29, evidentemente em
vista de Is 53 e do cordeiro pascal, “Cordeiro sem defeito e sem macula”, 1 Pe
1.19, e mesmo “nossa Pascual”, ou “nossos Cordeiro pascal”, que foi imolado por
nós, 1 Co 5.7. E por que os sacrifícios mosaicos eram típicos, naturalmente
lançam alguma luz sobre a natureza do grande sacrifício expiatório de Jesus Cristo.
c. Seu propósito.
Os sacrifícios do Velho Testamento
tinham duplo propósito. (1) meios pelos quais o ofensor podia ser restaurado à
posição e aos privilégios externos, desfrutados em sua condição de membro da
teocracia, a que ele tinha perdido o direito por negligencia e transgressão.
Como tais, eles cumpriam o seu propósito, independentemente da disposição e do
espírito com que foram apresentados. Contudo, em si mesmo não eram eficazes para
expiar transgressões morais. Não constituíam o sacrifício real que poderia
expiar a culpa moral e remover a corrupção moral, mas eram somente sombras da
realidade por vir. Falando do tabernáculo, diz os escritos de Hebreus: “É isto
uma parábola para a época presente; e, segundo esta, se oferecem assim dons
como sacrifícios, embora estes, no tocante à consciência, sejam ineficazes para
aperfeiçoar aquele que presta culto”, Hb 9.9.No capitulo seguinte, ele mostra
que aqueles sacrifícios não podem tornar perfeitos os ofertantes, 10.1, e não
podem remover pecados,10.4.(2) Do ponto de vista espiritual, eles eram tipos
dos sofrimentos e morte vicários de Cristo,e só obtinham perdão e aceitação de
Deus quando eram oferecidos com verdadeiro arrependimento, e com fé no método
de salvação usado por Deus. Só tinham significação salvadora na medida em que
levaram a atenção do israelita a fixar-se no Redentor vindouro e na redenção
prometida.
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